Os fundos de cobertura usam uma grande variedade de estratégias, e todos os gestores dizem que são únicos, não sendo passíveis de ser comparados aos outros. No entanto, muitas destas estratégias podem ser agrupadas em categorias que ajudam os analistas e investidores a avaliar a competência de um gestor e o desempenho de uma estratégia em determinadas condições macroeconómicas.

Segue-se uma lista pouco extensa e que não compreende todas as estratégias de fundos de cobertura, mas que dá ao leitor uma ideia da amplitude e complexidade das estratégias existentes.

Equity Hedge

A estratégia «equity hedge» é também designada por estratégia «long/ short» e, embora seja das mais fáceis de perceber, há varias subestratégias dentro desta categoria.

Long/Short

Nesta estratégia, os gestores de fundos de cobertura podem comprar ações que pensem estar desvalorizadas ou vender a descoberto as ações que pensem estar sobrevalorizadas.

Na maioria dos casos, o fundo terá uma exposição positiva aos mercados de ações – se tivermos, por exemplo, 70% dos fundos investidos em posições longas e 30% investidos em posições curtas. Neste exemplo, o risco líquido do mercado de ações é de 40% (70%-30%) e o fundo não utilizaria qualquer alavancagem (o risco bruto seria 100%).

No entanto, se o gestor aumentar as posições longas do fundo para 80% enquanto mantém 30% numa posição curta, o fundo terá um risco bruto de 110% (80%+30% = 110%), o que indica uma alavancagem de 10%.

Market Neutral

Nesta estratégia, um gestor de fundos de cobertura aplica os conceitos básicos referidos no parágrafo anterior, mas procura minimizar a exposição ao mercado geral. Este objetivo pode ser atingido de duas formas. Se for aplicado o mesmo peso nas posições longas e curtas, o risco líquido do fundo será igual a zero. Por exemplo, se 50% dos fundos forem investidos em posições longas e 50% forem investidos em posições curtas, o risco líquido será 0% e o risco bruto será 100%.

A segunda forma de alcançar a neutralidade de mercado é ter 0% de exposição ao beta. Neste caso, o gestor de fundos deve procurar investir em posições longas e curtas, para que o beta do fundo seja o mais baixo possível. Em qualquer destas estratégias, o objetivo do gestor é minorar o impacto das flutuações de mercado e confiar na sua capacidade para escolher ações.

Qualquer uma destas estratégias pode ser usada numa região, num setor ou numa indústria, podendo também ser aplicada a ações de capitalização de mercado, entre outras. No mundo dos fundos de cobertura, onde todos se tentam destacar, perceberá que as estratégias individuais têm nuances únicas, mas que todas usam os princípios básicos que aqui foram descritos.

Global Macro

Em termos gerais, estas estratégias têm o maior rácio risco/retorno de todas as estratégias de fundos de cobertura. Os fundos “global macro” investem em ações, obrigações, divisas, produtos, opções, futuros, contratos a termo e outros títulos derivativos. Tendem a fazer apostas direcionais nos preços dos ativos subjacentes e costumam ter um nível alto de alavancagem.

A maioria destes fundos tem uma perspetiva global e, graças à diversidade de investimentos e ao tamanho dos mercados nos quais investem, podem crescer bastante até chegarem ao limite da sua capacidade. Muitos dos fundos de cobertura que colapsaram eram “global macros”, como o Long-Term Capital Management e o Amaranth Advisors. Ambos eram fundos de grandes dimensões e com um nível alto de alavancagem.

Arbitragem de Valor Relativo

Esta estratégia abrange diferentes subestratégias que são usadas numa vasta gama de títulos. O conceito base a compra, por parte do gestor de fundos de cobertura, de um título que se espera vir a valorizar, enquanto vende a descoberto um outro título que se espera que desvalorize. Os títulos relacionados podem ser as ações e obrigações de uma determinada empresa, as ações de duas empresas diferentes ou duas obrigações emitidas pela mesma empresa com diferentes datas de vencimento ou cupões. Em qualquer um destes casos, há um valor de equilíbrio fácil de calcular desde que os títulos estejam relacionados, mas algumas das componentes sejam diferentes.

Vamos pegar num exemplo simples:

Imaginemos que uma empresa tem duas obrigações por liquidar: uma rende 8% e a outra 6%. Ambas são créditos garantidos por primeira hipoteca aos ativos da empresa e caducam no mesmo dia. Como a obrigação de 8% rende um cupão mais elevado, deve vender acima do valor nominal relativamente à obrigação de 6%. Quando a obrigação de 6% é transacionada pelo valor nominal (1000 dólares), a obrigação de 8% deve ser negociada a 1.276.76 dólares, e o resto mantém-se igual. No entanto, o valor do prémio é frequentemente desequilibrado, o que possibilita a entrada dos fundos de cobertura numa transação para tirar proveito das diferenças de preços temporárias. Imaginemos que a obrigação de 8% é negociada a 1.100 dólares enquanto a de 6% é negociada a 1000. Para tirar partido desta diferença de preços temporária, um gestor de fundos de cobertura compraria a obrigação de 8% e venderia a descoberto a obrigação de 6%. Usei um spread grande no prémio para explicar melhor o exemplo. Na verdade, o spread do equilíbrio é muito mais pequeno, obrigando o fundo de cobertura a gerar rendimentos bastante altos.

Arbitragem Conversível

Este é um dos tipos de arbitragem do valor relativo. Enquanto alguns fundos de cobertura se limitam a investir em obrigações conversíveis, um fundo de cobertura que use arbitragem conversível investe tanto em obrigações conversíveis como em ações de determinada empresa. Uma obrigação conversível pode ser convertida num determinado número de ações. Imaginemos que uma obrigação conversível vende por 1000 dólares e é conversível em 20 ações da empresa. Isto pressuporia que o preço de mercado da ação fosse 50 dólares. Por outro lado, numa transação com arbitragem conversível, um fundo de cobertura compra a obrigação conversível e vende a ação a descoberto, antecipando o aumento do preço da obrigação, a descida do preço da ação, ou ambos.

Lembremo-nos de que há duas variáveis adicionais que contribuem para o preço de uma obrigação conversível e não para o preço da ação subjacente.

  1. Em primeiro lugar, a obrigação conversível será influenciada pelas variações nas taxas de juro, como qualquer outra obrigação.
  2. Em segundo lugar, o seu preço será também influenciado pela opção incorporada para converter a obrigação em ação, e a opção incorporada é influenciada pela volatilidade.

Mesmo que a obrigação se vendesse por 1000 dólares e a ação se vendesse por 50 – o que, representa, neste caso, o equilíbrio – o gestor de fundos de cobertura optaria por uma arbitragem conversível se considerasse que a volatilidade da percentagem da obrigação referente à opção era demasiado baixa ou se a redução das taxas de juro provocasse o aumento do preço da obrigação mais do que o preço da ação.

Mesmo que estejam enganos e os preços relativos sigam um rumo diferente, já que a posição é imune do ponto de vista da empresa, o impacto das variações será pequeno. Um gestor de arbitragens conversíveis terá, portanto, de investir em muitas posições para conseguir angariar o maior número de pequenos retornos que formem um rendimento adequado ao grau de risco para um investidor. Mais uma vez, tal como noutras estratégias, isto faz com que o gestor utilize alguma alavancagem para aumentar os rendimentos.

Valores mobiliários de sociedades em dificuldades

Os fundos de cobertura que investem em valores mobiliários de sociedades em dificuldades são únicos. Em muitos casos, estes fundos de cobertura contribuem para a reestruturação de empréstimos e podem assumir posições nos conselhos de administração das empresas para ajudá-las na sua reestruturação.

Porém, nem todos os fundos de cobertura se comportam desta forma. Muitos compram títulos na esperança de que o seu valor aumente com base nos dados económicos fundamentais ou nos planos estratégicos atuais de gestão.

Em todo o caso, esta estratégia pressupõe a compra de obrigações que desvalorizaram bastante graças à instabilidade financeira da empresa ou às expectativas do em relação à possibilidade de a empresa estar a atravessar um período difícil. Noutros casos, uma empresa pode estar a sair de um processo de falência e um fundo de investimento compra as obrigações a preço baixo se concluir que a situação da empresa melhorará o suficiente para que as obrigações valorizem. A estratégia pode ser muito arriscada, já que muitas empresas não melhoram a sua situação, mas, por outro lado, os títulos são transacionados a valores tão baixos que o retorno ajustado ao grau de risco pode ser muito apelativo.

Conclusão

Há diversas estratégias de fundos de cobertura, muitas das quais não foram aqui analisadas. Mesmo as estratégias acima foram descritas de forma muito simplista, pelo que podem ser muito mais complicadas do que parecem. Há também muitos fundos de cobertura que usam mais de uma estratégia, movimentando ativos com base na sua avaliação das oportunidades disponíveis no mercado em determinado momento. Cada uma das estratégias enunciadas pode ser avaliada com base no seu potencial para retornos absolutos e em fatores macro e microeconómicos, em questões relacionadas com setores e até em impactos regulatórios governamentais. No âmbito desta avaliação, a decisão de afetação é fundamental para determinar o momento certo para investir e os objetivos em matéria de risco e retorno de cada estratégia.

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